Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de março de 2013

Apelo - Daniel Filipe

Pedido de socorro (onde estou eu?)
lançado ao mar numa garrafa escura.
À minha beira fica a sepultura;
dentro repousa o corpo que foi meu.

Aves de agoiro, a vida como é dura!
Tão pouco azul e derradeiro céu!
O vento norte alastra o claro véu
e esconde aos olhos a nudez impura.

Ah! sol de Junho!, ao menos és real.
teus finos dedos, alongados, tersos,
retratam-me em tamanho natural.

Outros sinais de mim ficam dispersos
Por sobre a água funda e o areal.

No bojo da garrafa vão só versos.

 Daniel Filipe, "O viageiro solitário"

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Preia Mar - Daniel Filipe

As ondas quebram na areia,
dizem segredos perdidos...
Saudades da maré-cheia,
de barcos e tempos idos...

Segredos tristes, lamentos,
que o mar não pôde calar...
E foi dizê-los aos ventos,
aos pescadores, ao luar...

As ondas dizem na areia
saudades de tempos idos...
Segredos da maré-cheia,
de barcos tristes
- perdidos.
Daniel Filipe, "Missiva"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Daniel Filipe - Poemas

Desnecessária explicação

Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?
Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho,
se dentro de mim cabe
a glória de ir sozinho?

Que importa a vã ternura
das horas magoadas,
se ao meu redor perdura
o eco das passadas?

Que importa a solidão
e o não saber onde ir,
se tudo, ao coração,
nos fala de partir?


Trespasse
Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados
— com naftalina — num baú inútil.
Por mim abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!

Estou resolvido. Vou abrir falência.
(Bandeira rubra desfraldada ao vento:
"Hoje, leilão!") Liquida-se a existência
— por retirada para o esquecimento ...

Romance de Tomasinho Cara-Feia - Daniel Filipe

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!