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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Tu tens um medo - Cecília Meireles

Tu tens um medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Horário de trabalho - Cecília Meireles

 Depois da treze poderei sofrer:
 antes, não.
 Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
 tenho as obrigações, à hora-certa.

 Depois irei almoçar vagamente
 para sobreviver,
 para aguentar o sofrimento.

 Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
 disporei o material da dor
 com a ordem necessária

 para prestar atenção a cada elemento:
 acomodarei no coração meus antigos punhais,
 distribuirei minhas cotas de lágrimas.

 Terminado esse compromisso,
 voltarei ao trabalho habitual.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"No último andar é mais bonito" - Cecília Meireles

 No último andar é mais bonito:
 do último andar se vê o mar.
 É lá que eu quero morar.

 O último andar é muito longe:
 custa-se muito a chegar.
 Mas é lá que eu quero morar.

 Todo o céu fica a noite inteira
 sobre o último andar
 É lá que eu quero morar.

 Quando faz lua no terraço
 fica todo o luar.
 É lá que eu quero morar.

 Os passarinhos lá se escondem
 para ninguém os maltratar:
 no último andar.

 De lá se avista o mundo inteiro:
 tudo parece perto, no ar.
 É lá que eu quero morar:

 no último andar.

"Renova-te" - Cecília Meireles

 Renova-te.
 Renasce em ti mesmo.
 Multiplica os teus olhos, para verem mais.
 Multiplica os teus braços para semeares tudo.
 Destrói os olhos que tiverem visto.
 Cria outros, para as visões novas.
 Destrói os braços que tiverem semeado, 
 Para se esquecerem de colher.
 Sê sempre o mesmo.
 Sempre outro. Mas sempre alto.
 Sempre longe.
 E dentro de tudo.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Poema - Cecília Meireles

 No desequilíbrio dos mares,
 as proas giram sozinhas...
 Numa das naves que afundaram
 é que certamente tu vinhas.

 Eu te esperei todos os séculos
 sem desespero e sem desgosto,
 e morri de infinitas mortes
 guardando sempre o mesmo rosto

 Quando as ondas te carregaram
 meu olhos, entre águas e areias,
 cegaram como os das estátuas,
 a tudo quanto existe alheias.

 Minhas mãos pararam sobre o ar
 e endureceram junto ao vento,
 e perderam a cor que tinham
 e a lembrança do movimento.

 E o sorriso que eu te levava
 desprendeu-se e caiu de mim:
 e só talvez ele ainda viva
 dentro destas águas sem fim

Lua adversa - Cecília Meireles

 Tenho fases, como a lua
 Fases de andar escondida,
 fases de vir para a rua...
 Perdição da minha vida!
 Perdição da vida minha!
 Tenho fases de ser tua,
 tenho outras de ser sozinha

 Fases que vão e que vêm,
 no secreto calendário
 que um astrólogo arbitrário
 inventou para meu uso.

 E roda a melancolia
 seu interminável fuso!
 Não me encontro com ninguém 
 (tenho fases, como a lua...)
 No dia de alguém ser meu
 não é dia de eu ser sua...
 E, quando chega esse dia,
 o outro desapareceu...

Poema "Nunca eu tivera querido" - Cecília Meireles

 Nunca eu tivera querido
 Dizer palavra tão louca
 Bateu-me um vento na boca
 E depois no teu ouvido
 Levou somente a palavra
 Deixou ficar o sentido

 O sentido está guardado
 No rosto com que te miro
 Nesse perdido suspiro
 Que te segue alucinado
 No meu sorriso suspenso
 Como um beijo malogrado

 Nunca ninguém viu ninguém
 Que o amor pusesse tão triste
 Esta tristeza não viste
 E eu sei que ela se vê bem
 Só se aquele mesmo vento
 Fechou teus olhos também

Motivo - Cecília Meireles

 Eu canto porque o instante existe
 E a minha vida está completa.
 Não sou alegre nem sou triste: 
 Sou poeta.

 Irmã das coisas fugidias,
 Não sinto gozo nem tormento.
 Atravesso noites e dias
 No vento

 Se desmorono ou se edifico, 
 Se permaneço, ou me desfaço, 
- não sei, não sei. Não sei se fico
 ou passo.

 Sei que canto. E a canção é tudo.
 Tem sangue eterno a asa rimada.
 E um dia sei que estarei muda: 
 - mais nada.

Despedida - Cecília Meireles

 Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
 que está onde as outras coisas nunca estão, 
 deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: 
 quero solidão. 

 Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
 E como o conheces? - me perguntarão. 
- Por não ter palavras, por não ter imagens. 
 Nenhum inimigo e nenhum irmão. 

 Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada. 
 Viajo sozinha com o meu coração. 
 Não ando perdida, mas desencontrada. 
 Levo o meu rumo na minha mão. 

 A memória voou da minha fronte. 
 Voou meu amor, minha imaginação... 
 Talvez eu morra antes do horizonte. 
 Memória, amor e o resto onde estarão? 

 Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
 (Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! 
 Estandarte triste de uma estranha guerra...) 
 Quero solidão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Extracto de poema - Cecília Meireles

Ainda que sendo tarde e em vão
Perguntarei por que motivo
Tudo quanto eu quis de mais vivo
Tinha por cima escrito "NÃO".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Canção - Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar,
- depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio,
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas