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sexta-feira, 16 de junho de 2017
Os Meus Versos - Florbela Espanca
Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!
Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...
Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...
Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...
Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O Meu Orgulho - Florbela Espanca
Lembro-me o que fui
dantes. Quem me dera
Não lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!
As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas… Quem soubera
Por que tudo passou e foi quimera,
E por que os muros velhos não dão rosas!
São sempre os que eu recordo que me esquecem…
Mas digo para mim: “Não me merecem…”
E já não fico tão abandonada!
Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha
E também é nobreza não ter nada!
Florbela Espanca, em "Livro de Sóror
Saudade"
domingo, 21 de julho de 2013
Crepúsculo - Florbela Espanca
Teus
olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
Como pálidas sedas, arrastando...
Um coração ardente palpitando...
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas, E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha Um coração ardente palpitando...
Florbela
Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
Alma perdida - Florbela Espanca
Toda
esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Que ninguém é mais triste do que nós!
Que chorasse perdida em tua voz!
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és,
talvez, um sonho que passou,
Que se
fundiu na Dor, suavemente…Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a
noite choraste… e eu chorei
Talvez
porque, ao ouvir-te, adivinheiQue ninguém é mais triste do que nós!
Contaste
tanta coisa à noite calma,
Que eu
pensei que tu eras a minh’almaQue chorasse perdida em tua voz!
sábado, 29 de junho de 2013
Mendiga - Florbela Espanca
Na vida
nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!
Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!
Veja passar o verme, rastejando...
Na solidão dos ermos matagais!...
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!
Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!
Agora
vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos Veja passar o verme, rastejando...
Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritosNa solidão dos ermos matagais!...
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