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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Na Mão de Deus - Antero de Quental

 Na mão de Deus, na sua mão direita,
 Descansou afinal meu coração.
 Do palácio encantado da Ilusão
 Desci a passo e passo a escada estreita.

 Como as flores mortais, com que se enfeita
 A ignorância infantil, despojo vão,
 Depois do Ideal e da Paixão
 A forma transitória e imperfeita.

 Como criança, em lôbrega jornada,
 Que a mãe leva ao colo agasalhada
 E atravessa, sorrindo vagamente,

 Selvas, mares, areias do deserto...
 Dorme o teu sono, coração liberto,
 Dorme na mão de Deus eternamente!

 Antero de Quental, in "Sonetos"

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Aspiração - Antero de Quental


 Meus dias vão correndo vagarosos
 Sem prazer e sem dor, e até parece
 Que o foco interior já desfalece
 E vacila com raios duvidosos

 É bela a vida e os anos são formosos,
 E nunca ao peito amante o amor falece...
 Mas, se a beleza aqui nos aparece,
 Logo outra lembra de mais puros gozos.

 Minh'alma, ó Deus! a outros céus aspira:
 Se um momento a prendeu mortal beleza,
 É pela eterna pátria que suspira...

 Porém do pressentir dá-me a certeza.
 Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
 Eu sempre bendirei esta tristeza!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O palácio da ventura - Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
paladino do amor, busco anelante
o palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
- "Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos portas de ouro, ante meus ais!"

Abrem-se as portas de ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
silêncio e escuridão - e nada mais!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Poema " Eu creio no destino das nações" - Antero de Quental

Eu creio no destino das nações
Não se fez para a dor, para os desterros
Esta ânsia que nos leva os corações
Hão-de ter fim um dia tantos erros
E do ninho das Velhas ilusões
Ver-se-á com pasmo erguer-se à imensidade
A águia esplandorosa e augusta da Verdade

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Na mão de Deus - Antero de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!