sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Horário de trabalho - Cecília Meireles

 Depois da treze poderei sofrer:
 antes, não.
 Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
 tenho as obrigações, à hora-certa.

 Depois irei almoçar vagamente
 para sobreviver,
 para aguentar o sofrimento.

 Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
 disporei o material da dor
 com a ordem necessária

 para prestar atenção a cada elemento:
 acomodarei no coração meus antigos punhais,
 distribuirei minhas cotas de lágrimas.

 Terminado esse compromisso,
 voltarei ao trabalho habitual.

Luz divina - Ana Redondo




Quando Jesus me tocou
E nos seus braços Maria me afagou
Tudo em redor se iluminou
E o meu coração se entregou.



Ana Redondo, Janeiro de 2014

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Pensamentos - Henry Van Dyke

O tempo é lento demais para os que esperam... rápido demais para os que temem... longo demais para os que sofrem... curto demais para os que celebram... mas para os que amam, o tempo é eterno.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"No último andar é mais bonito" - Cecília Meireles

 No último andar é mais bonito:
 do último andar se vê o mar.
 É lá que eu quero morar.

 O último andar é muito longe:
 custa-se muito a chegar.
 Mas é lá que eu quero morar.

 Todo o céu fica a noite inteira
 sobre o último andar
 É lá que eu quero morar.

 Quando faz lua no terraço
 fica todo o luar.
 É lá que eu quero morar.

 Os passarinhos lá se escondem
 para ninguém os maltratar:
 no último andar.

 De lá se avista o mundo inteiro:
 tudo parece perto, no ar.
 É lá que eu quero morar:

 no último andar.

"Renova-te" - Cecília Meireles

 Renova-te.
 Renasce em ti mesmo.
 Multiplica os teus olhos, para verem mais.
 Multiplica os teus braços para semeares tudo.
 Destrói os olhos que tiverem visto.
 Cria outros, para as visões novas.
 Destrói os braços que tiverem semeado, 
 Para se esquecerem de colher.
 Sê sempre o mesmo.
 Sempre outro. Mas sempre alto.
 Sempre longe.
 E dentro de tudo.

Memória - Carlos Drummond de Andrade

 Amar o perdido
 deixa confundido
 este coração.

 Nada pode o olvido
 contra o sem sentido
 apelo do Não.

 As coisas tangíveis
 tornam-se insensíveis
 à palma da mão

 Mas as coisas findas
 muito mais que lindas,
 essas ficarão.

Vive - Fernando Pessoa

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, Heterónimo de Fernando Pessoa