domingo, 3 de fevereiro de 2013

Poema " Eu creio no destino das nações" - Antero de Quental

Eu creio no destino das nações
Não se fez para a dor, para os desterros
Esta ânsia que nos leva os corações
Hão-de ter fim um dia tantos erros
E do ninho das Velhas ilusões
Ver-se-á com pasmo erguer-se à imensidade
A águia esplandorosa e augusta da Verdade

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Soubesse eu... (2013)

Soubesse eu cantar a grandiosa beleza que vejo ao redor
A diversidade fascinante que me assombra o olhar
E talvez se calasse este grito de dor,
Soubesse eu encontrar em tudo a perfeição
E talvez se desvanecesse esta ardente confusão.

Pudesse eu saber,
Quando tudo se escoa e se quebra,
Que a vida é fluir
E viver é sentir
Que a mudança é a regra
E é humano vibrar.

Pudesse eu acolher todo este esplendor
Do suave borbulhar do riacho
Ao ímpeto estrondoso do vulcão
Das estrias das folhas em minúsculo rigor
Ao grandioso universo pontilhado de estrelas
Dos cumes sobranceiros que encimam a névoa inferior
Ao sinuoso recorte que divide a costa e o mar
E talvez serenasse este anseio
Será dúvida, ambição, receio?
Talvez seja apenas ser-se humano...

O soar das ondas batendo na areia
O trinado das aves rasgando fronteiras,
O aroma da relva molhada
E o riso da criança entusiasmada
Tudo isto existe
Tudo isto acontece.

Soubesse eu embalar os meus sonhos
E avançar sem saudade
Esquecendo traição e maldade
Num manto de escolhos
Já gastos, vazios.

Então abraçaria a vida
Com bravura, certeza
Sem mágoas inúteis
Nem limites fúteis.

Ana Redondo, 30 de Janeiro de 2013

Citações - Antoine de Saint Exupery

Aimer n'est pas se regarder l'un l'outre mais regarder ensemble dans une même direction.

L'important dans la vie est savoir, en posant sa pierre que l'on contribue a batir le monde.

Ser poeta (1969)

Ser poeta
Não é fazer versos
Ser poeta
É descobrir
O mistério de uma flor
O encanto do Sol que se põe
Rubro e brilhante
Ser poeta não é fazer versos
Ser poeta
É compreender, sentir
Um sorriso ou uma dor
Um olhar profundo ou uma lágrima que cai
Ser poeta
É amar
Amar tudo o que nos rodeia
É saber olhar à nossa volta
Não só com os olhos
Com coração também
Ser poeta é sofrer
Sofrer sempre
Ser poeta
É viver
Ser poeta
Não é fazer versos



Ana Redondo, 1969

Na mão de Deus - Antero de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

afinal ainda escrevo versos (serão mesmo?) :)

Hoje solto aqui o meu lamento
Para que o meu grito se torne canção
E do meu tormento
Nasça a emoção.

Já não sei viver
Nesta rotina amarga
Toda este desvario
Ensandeceu-me a alma
Esta pesada carga
Tornou-se o meu martírio.

Se os que estão inertes
Moídos, cansados
Saíssem à rua
E pudessem falar
Talvez que a fraqueza
Virasse poder
E toda a tristeza
Crua, ensanguentada
Soubesse dizer:
Acabem-se as guerras
Enterrem-se os ódios
Calem-se os canhões

Corpos esventrados
Olhos enlutados
Muros de silêncio

Crianças tão magras
Que nem podem chorar,
Idosos perdidos, sem comunicar,
Juventude amarga,
Sua raiva a alastrar

Envio as minhas preces
Às crianças soldado.
Aprenderam, precoces,
Que só de armas na mão
Terão um amanhã

Nasceram com esperança
E o vigor dos sonhos.
Será que ainda guardam
Neste mundo cruel
A doce lembrança
Do amor de seus pais?

Rostos amargurados,
Corpos desprezados,
Campos abandonados.
E os poderosos
Vêm-nos dizer
Juntem-se à nossa guerra
Se querem vencer

Será que é vitória
Não escutar a dor?
Onde está a glória
De nem saber sofrer?

Mas os pássaros voam,
Florescem os campos,
Brilham as estrelas,
Cantam as cigarras.

Será que ser homem
É não saber escutar?
Viver na indiferença
De já nem olhar
Não sentir, não ver?
E ainda há quem clame
Procura o prazer!

Viver na ausência
Sem esperança, sem crença
É pior que morrer
É esquecer a essência
É fingir não Ser.

Nesta surda indiferença
Como alienados
Ficamos parados
Esquecidos, travados
E tão, tão esgotados
Por já não ter voz,
Que acabamos sendo
O nosso próprio algoz.

Será que a riqueza
Enfraqueceu o homem?
Será que a beleza
Já não traz calor?
Será que a verdade
Já não faz sentido?

E no solo banhado de sangue
E raiado de dor
Eu espero e suplico
Por um rasgo de amor.

(redigido algures nos anos 70)
Ana Redondo

Citações - Blaise Pascal

Os homens são tão necessariamente loucos que seria ser louco com outra forma de loucura não ser louco.