segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vida adulta - Ana Redondo (1981)

Agora que trato o mundo
Como massa anónima
E cada ser que eventualmente cruzo
Como potencial impulsionador
Do instante que passa
Que se esbaterá na sombra
Sem deixar rasto nem dor

Agora que vivo só
Com espectro circulante
E separado da vida
Agora que penso a cidade
Como expressão do urbanismo,
Manobro a oferta e a procura
Como entidades objectivas, exteriores
E o par de namorados
Como curiosidade sociológica

Agora que me rejo pela lei dos grandes números
E decido o futuro
Numa calculadora electrónica,
Agora que quebrei as amarras
Como a minha individualidade sensível
E encerrei bem selada
A minha vida emotiva,
Agora sim, estou preparada
Serei uma eficiente máquina
Na cibernética capitalista.


Ana Redondo, 1981

Só - Ana Redondo (1978)

Sei viver só
E já nem temo a solidão da noite
E o infinito do absoluto silêncio

Aprendi a olhar sozinha
Para o belo à minha volta
Aprendi, bem melhor ainda, a sofrer sozinha
E a verter lágrimas de pedra no interior do coração
Aprendi a interiorizar os pensamentos
E a nunca exteriorizar as emoções
E agora já não penso socialmente
Nem tenho emoções vividas
Aprendi tão bem a desenvolver interiores sensações
Que já nem sei exteriorizá-las
Mas como a exteriorização é parte da sensação
Creio que tenho assim um a vivência diferente
Aprendi a conter as minhas necessidades
E alimentar-me da solidão interior
Aprendi a negar tudo
Ao realizar que tudo me era negado

A minha máscara de gelo
Tornou-se o gelo do meu eu
Emoldurou-se tão perfeita no meu rosto
Que o meu rosto é ela própria
E nada mais ficou
E já não sei chorar
E já não sei sofrer
E só sei que nada quero
Porque nunca nada conseguiria
É tão perfeita a auto-destruição
Que francamente só queria
E muito profundamente
Coragem p'ra me matar


Ana Redondo, 1978

E enquanto momento a momento morro... - Ana Redondo (1982)

"E com isto que têm as estrelas?
                                               Continuam brilhando altas e belas"
                                               José Régio

Há lá morte mais dolorosa
Que esta que momento a momento me consome
Pedaço a pedaço me leva
E a pouco e pouco me destrói
Me seca os olhos
Me esvazia os sentidos
E me vai tornando pedra dura
... E estarei morta quando tiver esquecido
A súplica (quiçá fingida) que um dia li nos teus olhos

Ana Redondo, 1982



Nowhere Man - The Beatles