terça-feira, 18 de março de 2014

Escritos - Carlos Drummond de Andrade

 Fazer da areia, terra e água uma canção
 Depois, moldar de vento a flauta
 que há de espalhar esta canção
 Por fim tecer de amor lábios e dedos
 que a flauta animarão
 E a flauta, sem nada mais que puro som
 envolverá o sonho da canção
 por todo o sempre, neste mundo

Com o perdão das feministas - Nara Rúbia Ribeiro



No dia em que acordei flor
Dei pra ter carinho de pássaro,
Passei a declinar borboletas
E um pirilampo sonhou meu sol.

E de tanto ouvir os sábios conselhos dos grilos
E as recomendações do louva-a-deus,
Desabrochei de amor
Em maio molhado de orvalho.

Sei.
"Ser flor de maio não é nada moderno,"
Mas perdi o medo
Do que é eterno.

Anúncio de entardecer - Nara Rúbia Ribeiro

 Procura-se um sonho.
 Ele andou fatiado de medos,
 Iludiu-se, imiscuiu-se,
 E chegou a flertar com a utopia.

 Quem o encontrar,
 Diz a ele que o perdoo por tudo.
 Que o meu peito, em cicatrizes,
 É hoje até mais bonito que antes.

 Que aprendi que a força se desdobra
 Em indizíveis fraquezas.
 E que enquanto ainda chorava de inércia
 Meus olhos colheram do sol
 A força de desabrochar o meu mundo.

 Diz que a solidão me consome os espaços.
 E a vizinhança inteira me ouviu a gritar por seu nome.
 Diz que sangro a sua ausência
 E os seus silêncios me transbordam.
 Diz ao meu sonho que ele venceu.

 A minh' alma não se vendeu.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Meu Orgulho - Florbela Espanca

 Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
 Não lembrar! Em tardes dolorosas
 Lembro-me que fui a primavera
 Que em muros velhos faz nascer as rosas!

 As minhas mãos outrora carinhosas
 Pairavam como pombas… Quem soubera
 Por que tudo passou e foi quimera,
 E por que os muros velhos não dão rosas!

 São sempre os que eu recordo que me esquecem…
 Mas digo para mim: “Não me merecem…”
 E já não fico tão abandonada!

 Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
 Que também é orgulho ser sozinha
 E também é nobreza não ter nada!


 Florbela Espanca, em "Livro de Sóror Saudade"

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Horário de trabalho - Cecília Meireles

 Depois da treze poderei sofrer:
 antes, não.
 Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
 tenho as obrigações, à hora-certa.

 Depois irei almoçar vagamente
 para sobreviver,
 para aguentar o sofrimento.

 Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
 disporei o material da dor
 com a ordem necessária

 para prestar atenção a cada elemento:
 acomodarei no coração meus antigos punhais,
 distribuirei minhas cotas de lágrimas.

 Terminado esse compromisso,
 voltarei ao trabalho habitual.

Luz divina - Ana Redondo




Quando Jesus me tocou
E nos seus braços Maria me afagou
Tudo em redor se iluminou
E o meu coração se entregou.



Ana Redondo, Janeiro de 2014